Uma vez me peguei pensando em mim, sozinho. Fiz planos, tracei metas, e vi todas minhas expectativas indo solitariamente por água abaixo. Era tão e somente, primeira pessoa do singular.
Eu tinha mesmo uma 'arara de roupas', uma cama de solteiro, muita roupa espalhada pelo quarto, uma cozinha mal organizada, e um desejo enorme de ser plural.
Fui andando pela vida, sozinho, acompanhado, seguro, sozinho de novo, em grupos, em boa companhia, sozinho de novo... parecia um vagalume de sentimentos. Hora brilhava de alegria, hora cheio de escuridão!
Foi aí então que me permiti tentar ser plural. E via nos olhos de qualquer pessoa a confiança e o carinho que eu desejava que depositassem em mim. Mero e triste engano meu. Os plurais que fingi encontrar pela vida, tão vazios e cheios de desejos, me sufocaram e não fizeram parte da conjugação de nenhum dos meus verbos em plural, inclusive do verbo amar!
"mas (aí) eu recebi um telegrama" e decidi que a permissão que precisaria para ser plural não seria só minha, e com a ajuda de uma companhia que sempre desejei, me deixei sonhar em ser... e fui.
Eu tinha mesmo uma 'arara de roupas', uma cama de solteiro, muito mais roupas espalhadas pelo quarto, uma cozinha bem organizada, duas toalhas na porta do quarto, dois pares de sapato, duas mochilas de material escolar, tudo tão e absolumente PLURAL!
Meus olhos refletiam felicidade, minha boca só desejava coisas boas, meus abraços só transmitiam calor, minhas mãos só confortavam com segurança, e minha mente planejava brilhantemente um futuro distante.. e nesse futuro, tinha uma 'arara de roupas', tinha uma cama de solteiro (pra poder ficarmos sempre juntos), tinha uma cozinha grande com mesa de centro, tinha um canil pra dois cachorros, tinha árvores no quintal, tinha muito figurino de peças de teatro, tinha um consultório veterinário, tinha uma caixa de correio pras surpresas que eu te faria com os telegramas, tinha uma luz que se apagava sem as teias do homem-aranha, e acredite... tinha até a caixinha de areia que os gatos usavam pra fazer aquilo que a gente sabe que eles fazem.
E fui feliz!
Até que os verbos começaram a sair do rumo, até que o frio tomou conta da minha cama de solteiro, até que a cozinha mesmo limpa não tinha mais a sua gargalhada, até que uma das toalhas penduradas na porta permanecia seca, até que seu boa noite não fosse mais falado pra mim!!
Voltei a ser a mesma e fraca pessoa do singular!
Desejando que por descuido do futuro, do destino ou dos nossos sentimentos, nos tornemos eterno e completamente: PRIMEIRA PESSOA DO PLURAL!
eu te amo!
"até breve"